terça-feira, 11 de outubro de 2016

RESENHA: O CONQUISTADOR - O LOBO DAS PLANÍCIES

Título: O Lobo das Planícies
Série: O Conquistador

Páginas: 420
Autor (a): Conn Iggulden
Editora: Record (2008)

Sinopse: Temujin tinha apenas 11 anos quando seu pai foi morto. Filho do líder da tribo, o menino foi então abandonado, e começou a vagar pelas planícies. Em pouco tempo, Temujin dominava o arco-e-flecha, demonstrando grande habilidade com armas. Reunindo outros excluídos como ele, logo dominaria diversas tribos. A grande jornada apenas começava, um novo imperador estava nascendo: Gêngis Khan. 'O Lobo das Planícies' é o primeiro volume da série 'O Conquistador', que recria a saga do imperador mongol Gêngis Khan e de seus descendentes.

Já li algumas obras não romantizadas que retratam a vida do maior conquistador que já existiu, Gêngis Khan. Além das leituras, também assisti alguns filmes e, recentemente, tive contato com a série Marco Polo, onde vemos os filhos dos filhos de Gêngis Khan colhendo o que o pai plantou: um vasto império. Muitas pessoas já me indicaram a leitura da série O Conquistador, que é muito bem avaliada no Skoob e no Goodreads, e eu decidi aproveitar a minha "vibe histórica" pra ver se era isso tudo mesmo. Se vocês me pedissem pra definir esse livro em poucas palavras, eu diria: FENOMENAL!


* * * *

Em um inverno rigoroso, típico das terras mongóis, nasceu Temujin, o segundo filho de Yesugei, o khan dos Lobos, que foi batizado com o nome de um corajoso guerreiro tártaro morto pelas mãos de seu pai. Ao retirar a criança de dentro da mãe, a parteira notou que o recém-nascido segurava um coágulo de sangue em sua mão. Um mau presságio.

"— O nome do meu filho é Temujin. Ele será ferro."

Após um tempo, Temujin é levado à tribo dos Olkhun'ut, onde conhecerá aquela que poderá ser sua futura esposa, honrando assim a tradição e preservando a linhagem de sua mãe. Além disso, o garoto passará uma temporada na tribo para aprender todos os costumes, táticas de guerra e técnicas de luta dos guerreiros Olkhun'ut. O khan dos Lobos deixa o filho na tribo e segue o caminho de volta para sua casa.

Em uma de suas paradas para descansar e se alimentar, Yesugei é atacado por alguns tártaros, que deixam o khan gravemente ferido, envenenado e debilitado, mas mesmo assim levam a pior. Reunindo todas as forças que lhe restam, Yesugei consegue montar em seu pônei e seguir viagem.

Yesugei Baghatur
Inconsciente, o khan dos Lobos consegue chegar até a planície onde sua tribo está acampada e é resgatado por Bekter, seu filho mais velho, e seus homens de confiança, que o levam até sua iurta (um tipo de cabana) para ser cuidado por sua esposa, Hoelun. Um dos homens em quem Yesugei mais deposita sua confiança suspeita que seu senhor não sobreviva ao envenenamento e começa a demonstrar um cobiça nunca antes vista para com a posição de khan.

As notícias correm rápidas. Um mensageiro dos Lobos vai até os Olkhun'ut para notificar Temujin da situação de seu pai e o garoto parte em uma viagem frenética até as planícies.

Ao chegar a sua tribo, Temujin se apressa para a iurta de seu pai, que, como se estivesse esperando o garoto, dá o último suspiro e morre. É então que o jovem guerreiro mostra um pouco de frieza e imediatamente vai notificar o seu povo da morte do khan e, assim decidir quem, entre ele e Bekter, deverá assumir o posto de khan dos Lobos.

O que os irmãos não esperavam, é que o homem em quem seu pai mais confiava, trairia a família a quem jurou lealdade e usurparia o posto de khan dos filhos de Yesugei. Os dois irmãos se revoltam e partem pra briga com o guerreiro, que os derrota facilmente e, como se a humilhação de usurpar o posto de khan não fosse o suficiente, o usurpador ordena que os Lobos levantem acampamento e se mudem, mas a família do antigo khan deve ficar à esmo, sem abrigo, comida ou proteção. Temerosas, as pessoas que compõe a tribo dos lobos não se opõe à ordem do novo khan, e fazem o que foi ordenado.

Hoelun, a viúva de Yesugei, e seus filhos: Bekter, o mais velho; Temujin, o segundo; Kachiun e Khasar, os seguintes; Temuge, o quinto e Temulun, a recém-nascida, são deixados para trás na planície, somente com as roupas do corpo, a coragem, a vontade de sobreviver e a promessa de um inverno extremamente rigoroso.

A partir daí, a família abandonada passará por uma série de desafios, intrigas e muitas outras adversidades que moldarão seus caráteres, inclusive o de Temujin, que descobrirá ali, no momento de abandono, o verdadeiro khan que existe dentro dele.

Temujin, Gêngis Khan.
 Uma obra sem igual. Uma obra que emociona até o mais insensível leitor. Para escrever O Lobo das Planícies (não só o primeiro livro, mas a série toda), Conn Iggulden morou durante um tempo na terra de Gêngis Khan para pesquisar a fundo todas as lendas, culturas, costumes e culinária, o que deu um toque ainda mais especial à obra.

O livro possui uma narrativa em terceira pessoa sob o ponto de vista de Temujin (se alternando pouquíssimas vezes durante a leitura). A escrita de Conn Iggulden é belíssima, simples e agradável, bem direta e sem muita enrolação. A obra é dividida em duas partes onde, na primeira parte, acompanhamos a infância de Temujin, desde seu nascimento até o momento em que ele atinge a maioridade (o que nós conhecemos como maioridade). Na segunda parte já podemos ver um pouco mais de ação do que na primeira, pois é onde Temujin vai começar a colocar todas as suas ideias em prática.

Iggulden focou com intensidade na parte psicológica dos personagens, principalmente na família abandonada. Podemos acompanhar o desespero de uma mãe para cuidar de seus filhos, uma união entre irmãos se fortalecendo de forma emocionante, as brigas decorrentes do stress por causa da falta de recursos e etc. Esse desenvolvimento psicológico é extremamente importante para o personagem principal, pois, assim como eu já comentei ali no enredo, foi uma forma de moldar o caráter dele para que ele se tornasse o que conhecemos hoje como o maior conquistador que já existiu na humanidade.

As batalhas descritas por Conn Iggulden podem ser comparadas com as maravilhosas batalhas descritas por Bernard Cornwell. Gêngis Khan foi um exímio estrategista, e Iggulden conseguiu captar essa qualidade do conquistador e transcrevê-la com maestria. Além disso, a narrativa nos momentos de batalha é frenética, o que transporta o leitor para o meio do cerco e faz com que ele anseie por mais.

O livro possui uma excelente pesquisa histórica, como já é de se esperar, mas Conn Iggulden tomou a liberdade de inserir algumas partes fictícias na trama que se encaixam com perfeição. O final do livro conta com uma nota histórica escrita pelo autor, onde ele nos diz o que é história de verdade e o que é ficção.

Esse livro é indicado para leitores que apreciam a história dos grandes conquistadores. Quem simpatiza com Bernard Cornwell, com certeza irá adorar a história de Gêngis Khan contada por Conn Iggulden. Não deixem pra depois, leiam já!

"A coragem não pode ser deixada como ossos num saco. Deve ser tirada para fora e mostrada à luz repetidamente, ficando mais forte a cada vez. Se você acha que ela vai se manter para quando for necessária, está errado. Se você ignorá-la, o saco estará vazio quando você mais precisar."

Avaliação:




sexta-feira, 30 de setembro de 2016

RESENHA: SPARTACUS - O GLADIADOR

Título: Spartacus - O Gladiador
Série: Spartacus

Páginas: 448
Autor (a): Ben Kane
Editora: Agir (2014)

Sinopse: Após uma década no exército romano, Spartacus finalmente retorna à sua terra natal, mas o que encontra é somente traição. Kotys, o novo rei da Trácia, é um tirano usurpador apaixonado pela sacerdotisa Ariadne, e quando percebe que ela ama Spartacus, vende o casal como escravos para os romanos. Comprado pelo dono de uma escola de gladiadores, Spartacus se vê em um mundo de sangue e areia, onde é preciso enfrentar diariamente diversas facções de treinadores, lutadores fortes e influentes, as barbaridades da arena e a iminência de uma morte terrível. É só graças à inteligência e à imensa força física que ele consegue resistir às impiedosas batalhas, sem jamais se dobrar à brutalidade da sociedade romana. Enfrentando dia após dia os perigos, a sujeira e o caos dessa majestosa república, logo percebe que precisa se unir ao poderoso gladiador Crixus em uma guerra sangrenta entre escravos e senhores se quiser conquistar a maior das glórias: a liberdade. Embora a verdadeira história de Spartacus ainda seja um mistério, o gladiador de origem trácia ficou conhecido por liderar um exército de escravos que por pouco não levou abaixo a república romana. Fonte de inspiração para muitos, ele se tornou um símbolo da luta de classes oprimidas pela conquista da liberdade.

Meu primeiro contato com Spartacus foi com o filme homônimo lançando em 1960. Dirigido por Stanley Kubrick e com Kirk Douglas no elenco, o filme foi um sucesso de público e arrecadou 60 milhões de dólares em todo o mundo. Depois disso, só fui ouvi o ouvi o nome Spartacus novamente quando um colega da faculdade me indicou uma série (também homônima) produzida pela Starz. Essa é simplesmente uma das melhores séries que eu já assisti em toda a minha vida. Depois disso eu fui atrás de livros sobre o escravo e me deparei com essa obra escrita por Ben Kane em 2014.


De volta à sua terra natal após um longo tempo ocupando as fileiras do exército romano, Spartacus descobre a traição de Kotys, o atual rei da Trácia, que assassinou o antigo regente e usurpou o trono.

Revoltados com a atual situação de sua terra, Spartacus e mais um grupo de guerreiros leais decidem agir contra o tirano. Infelizmente, um dos guerreiros não era tão leal quanto parecia, e acaba traindo o grupo contando seus planos ao usurpador, que envia soldados para capturar os rebeldes. Spartacus e seus homens são presos e condenados à morte por açoitamento. (Aqui entra uma personagem importantíssima para o livro. Prefiro não comentar sobre ela para evitar spoilers).

Durante o cumprimento da sentença, um comerciante chega à Trácia em busca de escravos que possam se tornar lutadores em Roma. Ganancioso, Kotys vê ali uma oportunidade de se livrar de Spartacus e seus homens e lucrar com isso. Os guerreiros são vendidos e iniciam uma viagem até o ludo de Batiatus, em Roma, onde receberão o treinamento necessário para se tornarem gladiadores.



Spartacus e seus companheiros não são muitos bem recepcionados em sua chegada ao ludo, e o protagonista já cria uma rixa com os gladiadores veteranos, que o provocam de todas as maneiras possíveis.

Com o passar do tempo, Spartacus passa a ser reconhecido como líder por alguns homens e começa a arquitetar um plano para fugir do ludo e libertar todos os escravos. Para isso ele precisará do apoio dos demais líderes: Oenomaus, Crixus, Castus e Gannicus. Como já é de se esperar, a missão de convencer cada um desses homens a se rebelarem contra o ludo não é nada fácil, mas com um pouco de persuasão e força bruta, tudo se resolve.

Com um bom contingente de gladiadores em seu apoio, Spartacus coloca o plano em ação, mas é traído por um dos escravos que avisa Batiatus sobre a fuga, causando assim uma matança dentro do ludo.

Spartacus consegue escapar com 71 gladiadores, e é aí que o mito ganha vida.



Logo no início já podemos notar que a obra de Ben Kane é muito diferente de tudo aquilo que vimos no filme e na série. Isso não é ruim, pois é sempre legal ver uma história que "conhecemos" sob um ponto de vista diferente.

Spartacus - O Gladiador é narrado em terceira pessoa sob pontos de vista de escravos e romanos. O ritmo do livro é bem agitado, tendo leves quedas quando a narrativa se alterna para o ponto de vista de Ariadne, mas não se preocupe, pois a qualidade se mantém.

Os personagens de Ben Kane são excelentes. Spartacus não é o mocinho do livro, tampouco o vilão. O soldado trácio é dono de uma personalidade fortíssima e uma inteligência extrema, e podemos notar um bom desenvolvimento em suas atitudes durante a leitura. Ariadne é dona de uma personalidade forte, que quebra todos os estereótipos de personagens femininas que vemos (ou víamos) por aí. É uma das personagens mais importantes de todo o livro, pois suas "orações" ditarão o andamento da campanha de Spartacus contra Roma. Carbo foi, a meu ver, a maior surpresa em todo o livro. É o personagem no qual podemos notar o maior desenvolvimento em personalidade e técnicas de batalha. Os demais personagens também foram muito bem criados e desenvolvidos, mas os que merecem destaque são: Navio, Gannicus, Castus, Crixus.

O livro é repleto de batalhas, sejam elas contra os romanos ou entre os escravos, e Ben Kane não economizou palavras na hora de descrever a violência existente em cada uma delas. Além disso, o escritor narra as estratégias com maestria, o que permite um melhor aproveitamento no momento em que o leitor está visualizando a cena.

A fé está presente em todo o livro, desde a primeira à última página. Romanos e escravos estão sempre clamando a seus deuses, pedindo bençãos e afins. É interessante ressaltar que a campanha de Spartacus com os escravos é baseada somente na vontade dos deuses.

Por fim, gostaria de indicar esse livro àqueles que apreciam a história romana e querem conhecer um pouco mais sobre o escravo que se tornou herói. Também gostaria de indicar a série Spartacus (Blood and Sand - Gods of the Arena - Vengeance - War of the Damned).


Avaliação:



quinta-feira, 8 de setembro de 2016

RESENHA: A SOMBRA DO CORVO - A CANÇÃO DO SANGUE

Título: A Canção do Sangue
Série: As Sombra do Corvo
Páginas: 656
Autor (a): Anthony Ryan
Editora: LeYa (2014)

Sinopse: Quando Vaelin Al Sorna, um garoto de apenas 10 anos de idade, é deixado por seu pai na Casa da Sexta Ordem, ele é informado que sua única família agora é a Ordem. Durante vários anos ele é treinado de forma brutal e austera, além de ser condicionado a uma vida perigosa e celibatária. Mesmo assim, Vaelin resiste e torna-se líder entre seus Irmãos. Ao longo de sua jornada, Vaelin também descobrirá de quem foi o verdadeiro desejo para que ele fosse entregue à Ordem - o objetivo sempre foi protegê-lo, mas ele não tem ideia do quê. Aos poucos, indícios de uma esquecida Sétima Ordem e questões acerca das ações do Rei Janus fazem Vaelin Al Sorna questionar sua lealdade. Destinado a um futuro grandioso, ele ainda tem que compreender em quem confiar. Neste primeiro volume da trilogia A Sombra do Corvo, Anthony Ryan estreia de maneira promissora com uma aventura repleta de ação.



A Canção do Sangue, livro que inicia a trilogia A Sombra do Corvo, foi um dos lançamentos mais aclamados de 2014. Em meio a tantos lançamentos de grandes nomes da literatura fantástica, Anthony Ryan conseguiu destaque e hoje é considerado um dos maiores escritores de fantasia da atualidade. Sem enrolações, já posso adiantá-los de que esse foi um dos melhores livros que li esse ano (ficando atrás apenas de A Roda do Tempo, série pela qual me apaixonei perdidamente).


"— A lealdade é nossa força."

Vaelin Al Sorna, também conhecido como Eruhin Makhtar, o Matador do Esperança, está sendo levado a um julgamento por combate, onde deverá responder por todos os crimes que cometeu num passado não tão distante e, provavelmente, encontrar o destino que todos almejam para o filho do ex-Senhor da Batalha: a morte.


Tendo como companheiro de viagem o escriba imperial Verniers, Vaelin decide contar um pouco de sua história, revelando segredos nunca antes imaginados e omitindo verdades que poderiam valer uma vida. E assim começa a nossa história.

*     *     *

Ainda de luto pela morte de sua mãe, Vaelin segue seu pai, o Senhor da Batalha, um homem de pouquíssimas palavras, em uma viagem até a casa da Sexta Ordem, um grupo militar religioso que treina seus guerreiros para defenderem a Fé do Reino, e é lá, na casa da Sexta Ordem, que Vaelin é abandonado por seu pai para ser treinado nas artes da guerra.


Sem entender os motivos que levaram seu pai a abandoná-lo, Vaelin é colocado em um grupo com outros garotos recém chegados que possuem a mesma idade que ele. Todos esses garotos também foram abandonados na porta da Sexta Ordem por suas famílias e guardam as mágoas. Logo de início eles são ensinados que, à partir do momento em que foram largados para a Sexta Ordem, suas antigas famílias morreram. A Sexta Ordem é a nova (e única) família de todos aqueles que nela ingressam.

Os novatos iniciam um treinamento rígido e brutal, onde, antes de aprender a arte de matar, deverão saber como se livrar da morte, e para isso eles são enviados para testes de sobrevivência na natureza.

Em um desses testes de sobrevivência, Vaelin encontra um lobo na floresta e, logo após esse encontro, sofre uma tentativa de assassinato. É aí que Vaelin sente algo estranho dentro de si mesmo, algo como uma intuição que o avisa sobre os perigos que ainda estão por vir, algo que o indica qual direção tomar quando estiver perdido, algo mágico. Esse dom, essa intuição é chamada de Canção.


Ao finalizar o teste e retornar à Ordem, Vaelin começa a se questionar  sobre os motivos que levariam alguém a querer matá-lo, quem desejaria vê-lo morto e, o mais intrigante, por que fora enviado à Ordem?

O tempo vai se passando e Vaelin e seus irmãos de Fé vão encarando os testes e enfrentando treinamentos cada vez mais pesados, onde aprendem a usar todo e qualquer tipo de arma criada pelo homem, aprendem z arte da cavalaria, estratégias de combate, combates desarmados e até como forjar sua própria arma. Cada um dos irmãos de Vaelin se destaca em uma modalidade diferente: Vaelin é o melhor espadachim; Caenis conhece a natureza como um lobo; Nortah é o melhor cavaleiro; Barkus leva vantagem em combates desarmados; Dentos é o melhor arqueiro do grupo. A amizade entre os irmãos cresce e se fortalece cada vez mais.

*     *     *

Tempos depois, já confirmado como irmão da Sexta Ordem, Vaelin não vê outra opção a não ser pedir a ajuda do Rei Janus para uma causa. O Rei concede a ajuda, mas estabelece alguns critérios que são aceitos por Vaelin, que a partir desse momento está imerso em tramas políticas e religiosas. É aí que se inicia a lenda de Vaelin Al Sorna, o Beral Shak Ur, o Matador do Esperança, Irmão da Sexta Ordem e filho do ex-Senhor da Batalha do Rei.


Anthony Ryan dividiu esse primeiro livro da trilogia A Sombra do Corvo em 5 partes compostas por, no máximo, 12 capítulos. No início de cada parte temos um Relato de Verniers, que é uma parte da história contada sob o ponto de vista do escriba imperial durante a viagem até o local onde acontecerá o combate. Esses relatos são narrados em primeira pessoa. Quando partimos para a história de verdade, essa é narrada em terceira pessoa sob o ponto de vista de Vaelin Al Sorna.

Durante a primeira parte da obra, podemos notar uma leve semelhança com A Crônica do Matador do Rei, mas não pense que a infância de Vaelin se desenvolve de forma monótona como a de Kvothe. Esse pode ter sido o ponto mais forte de todo o livro: o desenvolvimento do personagem principal em sua infância. Fiquem sabendo também que, além de ter desenvolvido o personagem principal com maestria, Ryan também o fez com os secundários.

As religiões que Anthony Ryan criou são muito interessantes. De um lado temos a , que crê na vida após a morte e venera os Finados como se fossem deuses. De outro lado temos os praticantes da religião "pagã" do livro, as Trevas, onde os seus seguidores veneram deuses em cultos regulares. Junto às Trevas também podemos encaixar o sistema de magia do livro, que é bem complexo, mas muito interessante. No livro as magias são chamadas de Dons, e existem diversos tipos: cura, comunicação, persuasão e muitos outros. Vou destacar aqui o Dom da Canção. A Canção é como se fosse um instinto, ela "canta" para você se algum perigo está próximo, aumenta a sua sensibilidade com o sentimento das pessoas ao seu redor, permitindo desse modo que você saiba, por exemplo, se uma pessoa está mentindo ou não.

Tramas políticas não podem estar de fora de um livro dessa magnitude, e em A Canção do Sangue elas são bem presentes e possuem certa ligação com os muitos conflitos religiosos.

Além da excelente inserção dos personagens masculinos na obra, Anthony Ryan teve o cuidado de inserir personagens femininas com personalidades fortíssimas e um grau de importância gigantesco para a série. Como exemplos eu posso citar a manipuladora Princesa Lyrna, Sella, a garota muda e enigmática que Vaelin encontra em um dos testes de sobrevivência, e a marrenta, porém muito carismática Irmã Sherin, que possui habilidades que contrastam com as de Vaelin, sendo desse modo uma personagem para se ficar de olho.

As batalhas descritas por Anthony Ryan me lembraram um pouco o estilo de Bernard Cornwell. Ryan vai direto ao ponto, sem enrolações, descrevendo as estratégias e habilidades usadas.

Por fim, preciso dizer que uma das coisas que mais me impressionou nesse livro foi o relacionamento de Vaelin com seus irmãos de Fé. O laço de amizade fortíssimo, a lealdade conquistada, as mentiras contadas para salvar a vida de um irmão. Confesso que em algumas partes a emoção quase tomou conta de mim. O trabalho de Anthony Ryan é lindo.

Avaliação:







domingo, 14 de agosto de 2016

RESENHA: AS AVENTURAS DE SHARPE - O TIGRE DE SHARPE

Título: O Tigre de Sharpe
Série: As Aventuras de Sharpe
Páginas: 406
Autor (a): Bernard Cornwell
Editora: Record (2005)

Sinopse: Misore, Índia, 1799. Richard Sharpe é um jovem recruta a serviço da realeza britânica e integrante da expedição para derrubar o impiedoso sultão Tipu, no poder com a ajuda dos aliados franceses. Acusado de insubordinação por seu superior, o sargento Hakeswill, Sharpe acaba destacado para uma perigosa missão: infiltrar-se na intransponível Seringapatam, cidade-fortaleza do líder indiano. Fingindo-se de desertor, o jovem soldado deve contatar um espião escocês aprisionado e descobrir a melhor maneira de o exército britânico conquistar a cidade. Caso seja bem-sucedido, Sharpe ganhará as divisas de sargento. Entretanto, se fracassar, ficará frente a frente com os assustadores tigres de Tipu. Em um mundo exótico e estranho para o recruta, um passo em falso significará a morte. A situação complica-se ainda mais quando o jovem espião descobre que deve lutar contra seus velhos camaradas para salvar a própria vida. O tigre de Sharpe é o emocionante livro de estréia protagonizado pelo oficial britânico Richard Sharpe, que participará de conflitos na costa de Portugal e Espanha até a derrota do exército napoleônico em Waterloo. Os livros da série As Aventuras de Sharpe já venderam mais de 4 milhões de cópias no mundo todo e tornaram-se seriado de televisão na Inglaterra.

*Livro lido na Maratona Parede de Escudos

As Aventuras de Sharpe é uma das mais aclamadas séries de Bernard Cornwell. Composta por 21 volumes (!), a série é ambientada em um período napoleônico, bem à frente do período medieval que o escritor costuma narrar em suas obras. Sem mais delongas, vamos lá!


O exército britânico está em campanha na Índia e tem como principal objetivo a tomada de Seringapatam, uma importantíssima rota de comércio da região que está sob as ordens do famoso sultão Tipu. Com o evidente avanço das tropas inglesas, Tipu alia-se aos franceses com o intuito de fortalecer mais as suas defesas.

Entre os muitos soldados do exército inglês, conheceremos Richard Sharpe, um simples recruta analfabeto da Companhia Ligeira do 33° Regimento do rei. Insatisfeito com vida militar, Sharpe pensa seriamente em desertar e levar consigo sua amada Mary, tirando-a das mãos carniceiras de Obadiah Hakeswill, um dos sargentos do 33° Regimento.

Obadiah Hakeswill faz de tudo para que Sharpe seja expulso do exército ou morto. Em uma de suas investidas, Hakeswill inicia uma série de provocações que fazem com que Sharpe perca a cabeça e agrida seu superior. O recruta é condenado a uma pena de 2.000 chibatadas em suas costas nuas.

A felicidade de Hakeswill dura pouco, pois antes do término do açoitamento, Sharpe é convocado para uma reunião com os oficiais do alto escalão. Debilitado e beirando a inconsciência, Sharpe é desamarrado do tronco e levado aos superiores, que o colocam em uma missão suicida junto do tenente William Lawford: os dois precisam se infiltrar na fortaleza de Seringapatam, encontrar um oficial de alta patente que possui uma informação valiosa para o exército, mas que foi capturado e está sendo mantido preso por Tipu.

A aventura começa quando Sharpe e Lawford partem rumo à Seringapatam.




"— Meu Deus! — exclamou um soldado da retaguarda. — Que foi isso?
— Um peido de camelo — retorquiu um cabo. — Ora, diabos, o que você acha que foi?
— Foi um péssimo tiro — comentou Sharpe. — Minha mãe maneja um canhão melhor que essa gente.
— Não acho que você tenha tido mãe — provocou o recruta Garrard.
— Tom, todo mundo teve mãe.
— Não o sargento Hakeswill — disse Garrard, cuspindo uma mistura de poeira e saliva."

Diferente de suas outras obras, Bernard Cornwell decidiu ambientar As Aventuras de Sharpe em um período onde os arcos de freixo foram substituídos por rifles e mosquetes.

O Tigre de Sharpe é narrado em terceira pessoa sob diferentes pontos de vista. Mais uma vez, como já é de costume, essas mudanças de ponto de vista podem dar uma quebrada no ritmo da história, mas são essenciais para apresentar alguns personagens, estratégias militares e etc.

Bernard Cornwell possui uma habilidade fantástica de inserir personagens fictícios em acontecimentos históricos reais, e com Richard Sharpe não foi diferente. Além do soldado, os demais personagens que integram a trama também foram bem construídos, e esses merecem um belo destaque: sultão Tipu, coronel Gudin, William Lawford e até o bastardo infame Obadiah Hakeswill. Senti falta de desenvolvimento em alguns personagens, mas nada que afete a leitura.



O Tigre de Sharpe não é um livro focado nas batalhas (apesar de que as poucas existentes tiram o folêgo) , mas sim nas estratégias militares. Os vocabulários de época utilizados para descrever os arsenais de guerra são um ponto fortíssimo na obra. Pode ser que alguns leitores que não possuem um conhecimento mais aprofundado em arsenal de guerra se percam, mas nada que o Google não possa ajudar.

Muitos dos fatos apresentados no livro são reais, mas Bernard Cornwell se deu a liberdade de acrescentar algumas coisinhas à história. Os fatos reais e os fictícios são apresentados, discutidos e explicados na nota histórica do final do livro.

O livro possui um final muito agradável que quase não deixa ganchos para os próximos volumes.

Essa foi mais uma excelente obra do mestre da ficção histórica que eu tive o prazer de ler e, mesmo a série sendo muito extensa e não ter sido finalizada aqui no Brasil, eu investirei nos próximos livros.


Avaliação:









domingo, 31 de julho de 2016

RESENHA: A BUSCA DO GRAAL - O ARQUEIRO

Título: O Arqueiro
Série: A Busca do Graal
Páginas: 444
Autor (a): Bernard Cornwell
Editora: Record (2011)

Sinopse: Bernard Cornwell usa como cenário a Guerra dos Cem Anos para dar início à uma saga empolgante. Acompanhe a trajetória do jovem guerreiro Thomas que, aos 18 anos, vê o pai morrer em seus braços num ataque-surpresa à cidade de Hookton. Um lugar simples que escondia um grande segredo: a lança usada por São Jorge para matar o dragão. Em busca de vingança, o rapaz, arqueiro habilidoso, junta-se ao exército inglês em campanha na França, onde se envolve em batalhas e aventuras que, sem perceber, lançam-no em busca do Santo Graal.

*Livro lido na Maratona Parede de Escudos

Após a leitura do livro O Rei do Inverno, decidi me aventurar ainda mais no período medieval sob a narrativa de Bernard Cornwell e me deparei com essa excelente obra. O Arqueiro é o primeiro livro da trilogia A Busca do Graal, que é muito aclamada entre os leitores do gênero.



Durante uma vigília na véspera do domingo de Páscoa, franceses invadem a cidadezinha de Hookton em busca de um artefato religioso que está sob os cuidados de um padre. Em meio ao caos, os franceses encontram o tal artefato e matam o seu guardião.

Thomas, um rapaz de 18 anos que possui uma incrível habilidade no manejo do arco longo, assiste o assassinato de seu pai e, escondido, consegue acertar uma flecha em um dos assassinos, matando-o. Já livre da ameaça francesa, Thomas vai ao encontro de seu pai moribundo e promete que recuperará o artefato que é de sua família por direito.

A partir daí, Thomas ingressa no exército inglês, tornando-se um dos temidos soldados que preenchem as fileiras de arqueiros, e sua aventura começa!


Realista, sangrento e com referências históricas excelentes. São esses três pontos que fazem O Arqueiro ser um livro fantástico!

O livro possui uma narrativa bem detalhista em terceira pessoa, que se alterna entre diferentes pontos de vista. Em alguns desses pontos de vista podemos notar uma quebrada no ritmo da história, mas não é nada muito grave, pois o ritmo vai voltando aos poucos (uma das características de Bernard Cornwell).

O nosso protagonista é um dos pontos mais fortes do livro. Thomas é um personagem indeciso, cético, repleto de dilemas e vive paixões com a mesma intensidade com que as esquece. O arqueiro se encaixa mais no estereótipo do anti-herói do que do herói propriamente dito.

Assim como Thomas, os demais personagens do livro são bem interessantes, mas uns são mais desenvolvidos do que outros. Destaque especial para Guillaume d'Eveque, Blackbird (uma personagem feminina de personalidade forte) e padre Hobbe.

Já sabemos que Bernard Cornwell narra batalhas como ninguém, mas nesse livro ele se supera, pois usa como base a incrível Batalha de Crécy, batalha essa que deu início à Guerra dos Cem Anos, disputada entre França e Inglaterra. As estratégias de batalha são inseridas com maestria e a descrição dos arqueiros em atividade é fantástica!


O Arqueiro é o livro onde podemos ver com exatidão a habilidade que Bernard Cornwell possui em criar personagens fictícios e inseri-los dentro de histórias verídicas. É um livro para pessoas que gostam de história e anseiam sempre por mais conhecimento.

Avaliação: