sexta-feira, 30 de setembro de 2016

RESENHA: SPARTACUS - O GLADIADOR

Título: Spartacus - O Gladiador
Série: Spartacus

Páginas: 448
Autor (a): Ben Kane
Editora: Agir (2014)

Sinopse: Após uma década no exército romano, Spartacus finalmente retorna à sua terra natal, mas o que encontra é somente traição. Kotys, o novo rei da Trácia, é um tirano usurpador apaixonado pela sacerdotisa Ariadne, e quando percebe que ela ama Spartacus, vende o casal como escravos para os romanos. Comprado pelo dono de uma escola de gladiadores, Spartacus se vê em um mundo de sangue e areia, onde é preciso enfrentar diariamente diversas facções de treinadores, lutadores fortes e influentes, as barbaridades da arena e a iminência de uma morte terrível. É só graças à inteligência e à imensa força física que ele consegue resistir às impiedosas batalhas, sem jamais se dobrar à brutalidade da sociedade romana. Enfrentando dia após dia os perigos, a sujeira e o caos dessa majestosa república, logo percebe que precisa se unir ao poderoso gladiador Crixus em uma guerra sangrenta entre escravos e senhores se quiser conquistar a maior das glórias: a liberdade. Embora a verdadeira história de Spartacus ainda seja um mistério, o gladiador de origem trácia ficou conhecido por liderar um exército de escravos que por pouco não levou abaixo a república romana. Fonte de inspiração para muitos, ele se tornou um símbolo da luta de classes oprimidas pela conquista da liberdade.

Meu primeiro contato com Spartacus foi com o filme homônimo lançando em 1960. Dirigido por Stanley Kubrick e com Kirk Douglas no elenco, o filme foi um sucesso de público e arrecadou 60 milhões de dólares em todo o mundo. Depois disso, só fui ouvi o ouvi o nome Spartacus novamente quando um colega da faculdade me indicou uma série (também homônima) produzida pela Starz. Essa é simplesmente uma das melhores séries que eu já assisti em toda a minha vida. Depois disso eu fui atrás de livros sobre o escravo e me deparei com essa obra escrita por Ben Kane em 2014.


De volta à sua terra natal após um longo tempo ocupando as fileiras do exército romano, Spartacus descobre a traição de Kotys, o atual rei da Trácia, que assassinou o antigo regente e usurpou o trono.

Revoltados com a atual situação de sua terra, Spartacus e mais um grupo de guerreiros leais decidem agir contra o tirano. Infelizmente, um dos guerreiros não era tão leal quanto parecia, e acaba traindo o grupo contando seus planos ao usurpador, que envia soldados para capturar os rebeldes. Spartacus e seus homens são presos e condenados à morte por açoitamento. (Aqui entra uma personagem importantíssima para o livro. Prefiro não comentar sobre ela para evitar spoilers).

Durante o cumprimento da sentença, um comerciante chega à Trácia em busca de escravos que possam se tornar lutadores em Roma. Ganancioso, Kotys vê ali uma oportunidade de se livrar de Spartacus e seus homens e lucrar com isso. Os guerreiros são vendidos e iniciam uma viagem até o ludo de Batiatus, em Roma, onde receberão o treinamento necessário para se tornarem gladiadores.



Spartacus e seus companheiros não são muitos bem recepcionados em sua chegada ao ludo, e o protagonista já cria uma rixa com os gladiadores veteranos, que o provocam de todas as maneiras possíveis.

Com o passar do tempo, Spartacus passa a ser reconhecido como líder por alguns homens e começa a arquitetar um plano para fugir do ludo e libertar todos os escravos. Para isso ele precisará do apoio dos demais líderes: Oenomaus, Crixus, Castus e Gannicus. Como já é de se esperar, a missão de convencer cada um desses homens a se rebelarem contra o ludo não é nada fácil, mas com um pouco de persuasão e força bruta, tudo se resolve.

Com um bom contingente de gladiadores em seu apoio, Spartacus coloca o plano em ação, mas é traído por um dos escravos que avisa Batiatus sobre a fuga, causando assim uma matança dentro do ludo.

Spartacus consegue escapar com 71 gladiadores, e é aí que o mito ganha vida.



Logo no início já podemos notar que a obra de Ben Kane é muito diferente de tudo aquilo que vimos no filme e na série. Isso não é ruim, pois é sempre legal ver uma história que "conhecemos" sob um ponto de vista diferente.

Spartacus - O Gladiador é narrado em terceira pessoa sob pontos de vista de escravos e romanos. O ritmo do livro é bem agitado, tendo leves quedas quando a narrativa se alterna para o ponto de vista de Ariadne, mas não se preocupe, pois a qualidade se mantém.

Os personagens de Ben Kane são excelentes. Spartacus não é o mocinho do livro, tampouco o vilão. O soldado trácio é dono de uma personalidade fortíssima e uma inteligência extrema, e podemos notar um bom desenvolvimento em suas atitudes durante a leitura. Ariadne é dona de uma personalidade forte, que quebra todos os estereótipos de personagens femininas que vemos (ou víamos) por aí. É uma das personagens mais importantes de todo o livro, pois suas "orações" ditarão o andamento da campanha de Spartacus contra Roma. Carbo foi, a meu ver, a maior surpresa em todo o livro. É o personagem no qual podemos notar o maior desenvolvimento em personalidade e técnicas de batalha. Os demais personagens também foram muito bem criados e desenvolvidos, mas os que merecem destaque são: Navio, Gannicus, Castus, Crixus.

O livro é repleto de batalhas, sejam elas contra os romanos ou entre os escravos, e Ben Kane não economizou palavras na hora de descrever a violência existente em cada uma delas. Além disso, o escritor narra as estratégias com maestria, o que permite um melhor aproveitamento no momento em que o leitor está visualizando a cena.

A fé está presente em todo o livro, desde a primeira à última página. Romanos e escravos estão sempre clamando a seus deuses, pedindo bençãos e afins. É interessante ressaltar que a campanha de Spartacus com os escravos é baseada somente na vontade dos deuses.

Por fim, gostaria de indicar esse livro àqueles que apreciam a história romana e querem conhecer um pouco mais sobre o escravo que se tornou herói. Também gostaria de indicar a série Spartacus (Blood and Sand - Gods of the Arena - Vengeance - War of the Damned).


Avaliação:



quinta-feira, 8 de setembro de 2016

RESENHA: A SOMBRA DO CORVO - A CANÇÃO DO SANGUE

Título: A Canção do Sangue
Série: As Sombra do Corvo
Páginas: 656
Autor (a): Anthony Ryan
Editora: LeYa (2014)

Sinopse: Quando Vaelin Al Sorna, um garoto de apenas 10 anos de idade, é deixado por seu pai na Casa da Sexta Ordem, ele é informado que sua única família agora é a Ordem. Durante vários anos ele é treinado de forma brutal e austera, além de ser condicionado a uma vida perigosa e celibatária. Mesmo assim, Vaelin resiste e torna-se líder entre seus Irmãos. Ao longo de sua jornada, Vaelin também descobrirá de quem foi o verdadeiro desejo para que ele fosse entregue à Ordem - o objetivo sempre foi protegê-lo, mas ele não tem ideia do quê. Aos poucos, indícios de uma esquecida Sétima Ordem e questões acerca das ações do Rei Janus fazem Vaelin Al Sorna questionar sua lealdade. Destinado a um futuro grandioso, ele ainda tem que compreender em quem confiar. Neste primeiro volume da trilogia A Sombra do Corvo, Anthony Ryan estreia de maneira promissora com uma aventura repleta de ação.



A Canção do Sangue, livro que inicia a trilogia A Sombra do Corvo, foi um dos lançamentos mais aclamados de 2014. Em meio a tantos lançamentos de grandes nomes da literatura fantástica, Anthony Ryan conseguiu destaque e hoje é considerado um dos maiores escritores de fantasia da atualidade. Sem enrolações, já posso adiantá-los de que esse foi um dos melhores livros que li esse ano (ficando atrás apenas de A Roda do Tempo, série pela qual me apaixonei perdidamente).


"— A lealdade é nossa força."

Vaelin Al Sorna, também conhecido como Eruhin Makhtar, o Matador do Esperança, está sendo levado a um julgamento por combate, onde deverá responder por todos os crimes que cometeu num passado não tão distante e, provavelmente, encontrar o destino que todos almejam para o filho do ex-Senhor da Batalha: a morte.


Tendo como companheiro de viagem o escriba imperial Verniers, Vaelin decide contar um pouco de sua história, revelando segredos nunca antes imaginados e omitindo verdades que poderiam valer uma vida. E assim começa a nossa história.

*     *     *

Ainda de luto pela morte de sua mãe, Vaelin segue seu pai, o Senhor da Batalha, um homem de pouquíssimas palavras, em uma viagem até a casa da Sexta Ordem, um grupo militar religioso que treina seus guerreiros para defenderem a Fé do Reino, e é lá, na casa da Sexta Ordem, que Vaelin é abandonado por seu pai para ser treinado nas artes da guerra.


Sem entender os motivos que levaram seu pai a abandoná-lo, Vaelin é colocado em um grupo com outros garotos recém chegados que possuem a mesma idade que ele. Todos esses garotos também foram abandonados na porta da Sexta Ordem por suas famílias e guardam as mágoas. Logo de início eles são ensinados que, à partir do momento em que foram largados para a Sexta Ordem, suas antigas famílias morreram. A Sexta Ordem é a nova (e única) família de todos aqueles que nela ingressam.

Os novatos iniciam um treinamento rígido e brutal, onde, antes de aprender a arte de matar, deverão saber como se livrar da morte, e para isso eles são enviados para testes de sobrevivência na natureza.

Em um desses testes de sobrevivência, Vaelin encontra um lobo na floresta e, logo após esse encontro, sofre uma tentativa de assassinato. É aí que Vaelin sente algo estranho dentro de si mesmo, algo como uma intuição que o avisa sobre os perigos que ainda estão por vir, algo que o indica qual direção tomar quando estiver perdido, algo mágico. Esse dom, essa intuição é chamada de Canção.


Ao finalizar o teste e retornar à Ordem, Vaelin começa a se questionar  sobre os motivos que levariam alguém a querer matá-lo, quem desejaria vê-lo morto e, o mais intrigante, por que fora enviado à Ordem?

O tempo vai se passando e Vaelin e seus irmãos de Fé vão encarando os testes e enfrentando treinamentos cada vez mais pesados, onde aprendem a usar todo e qualquer tipo de arma criada pelo homem, aprendem z arte da cavalaria, estratégias de combate, combates desarmados e até como forjar sua própria arma. Cada um dos irmãos de Vaelin se destaca em uma modalidade diferente: Vaelin é o melhor espadachim; Caenis conhece a natureza como um lobo; Nortah é o melhor cavaleiro; Barkus leva vantagem em combates desarmados; Dentos é o melhor arqueiro do grupo. A amizade entre os irmãos cresce e se fortalece cada vez mais.

*     *     *

Tempos depois, já confirmado como irmão da Sexta Ordem, Vaelin não vê outra opção a não ser pedir a ajuda do Rei Janus para uma causa. O Rei concede a ajuda, mas estabelece alguns critérios que são aceitos por Vaelin, que a partir desse momento está imerso em tramas políticas e religiosas. É aí que se inicia a lenda de Vaelin Al Sorna, o Beral Shak Ur, o Matador do Esperança, Irmão da Sexta Ordem e filho do ex-Senhor da Batalha do Rei.


Anthony Ryan dividiu esse primeiro livro da trilogia A Sombra do Corvo em 5 partes compostas por, no máximo, 12 capítulos. No início de cada parte temos um Relato de Verniers, que é uma parte da história contada sob o ponto de vista do escriba imperial durante a viagem até o local onde acontecerá o combate. Esses relatos são narrados em primeira pessoa. Quando partimos para a história de verdade, essa é narrada em terceira pessoa sob o ponto de vista de Vaelin Al Sorna.

Durante a primeira parte da obra, podemos notar uma leve semelhança com A Crônica do Matador do Rei, mas não pense que a infância de Vaelin se desenvolve de forma monótona como a de Kvothe. Esse pode ter sido o ponto mais forte de todo o livro: o desenvolvimento do personagem principal em sua infância. Fiquem sabendo também que, além de ter desenvolvido o personagem principal com maestria, Ryan também o fez com os secundários.

As religiões que Anthony Ryan criou são muito interessantes. De um lado temos a , que crê na vida após a morte e venera os Finados como se fossem deuses. De outro lado temos os praticantes da religião "pagã" do livro, as Trevas, onde os seus seguidores veneram deuses em cultos regulares. Junto às Trevas também podemos encaixar o sistema de magia do livro, que é bem complexo, mas muito interessante. No livro as magias são chamadas de Dons, e existem diversos tipos: cura, comunicação, persuasão e muitos outros. Vou destacar aqui o Dom da Canção. A Canção é como se fosse um instinto, ela "canta" para você se algum perigo está próximo, aumenta a sua sensibilidade com o sentimento das pessoas ao seu redor, permitindo desse modo que você saiba, por exemplo, se uma pessoa está mentindo ou não.

Tramas políticas não podem estar de fora de um livro dessa magnitude, e em A Canção do Sangue elas são bem presentes e possuem certa ligação com os muitos conflitos religiosos.

Além da excelente inserção dos personagens masculinos na obra, Anthony Ryan teve o cuidado de inserir personagens femininas com personalidades fortíssimas e um grau de importância gigantesco para a série. Como exemplos eu posso citar a manipuladora Princesa Lyrna, Sella, a garota muda e enigmática que Vaelin encontra em um dos testes de sobrevivência, e a marrenta, porém muito carismática Irmã Sherin, que possui habilidades que contrastam com as de Vaelin, sendo desse modo uma personagem para se ficar de olho.

As batalhas descritas por Anthony Ryan me lembraram um pouco o estilo de Bernard Cornwell. Ryan vai direto ao ponto, sem enrolações, descrevendo as estratégias e habilidades usadas.

Por fim, preciso dizer que uma das coisas que mais me impressionou nesse livro foi o relacionamento de Vaelin com seus irmãos de Fé. O laço de amizade fortíssimo, a lealdade conquistada, as mentiras contadas para salvar a vida de um irmão. Confesso que em algumas partes a emoção quase tomou conta de mim. O trabalho de Anthony Ryan é lindo.

Avaliação: